Introdução ao Estudo da Bíblia | Aula I – Introdução

Aula I – Introdução ao Estudo da Bíblia

Sobre o professor

Erick Lopes da Silva é Ministro da Palavra, ordenado em 30 de maio de 2015 pela União de Ministros Batistas Independentes da Bahia (UMBIBA), a pedido do Seminário Teológico Batista Independente do Nordeste (STBINE), após aprovação com nota máxima no concílio ministerial da instituição.

É bacharel em Teologia (Faculdade Batista Brasileira, 2010) e licenciado em Filosofia (Faculdade Batista Brasileira, 2012), em Sociologia e em Ciência da Computação (Centro Universitário Unifatecie). Possui ainda especializações em Gestão Estratégica em Relações Públicas, Comunicação Empresarial, Terceiro Setor e Projetos Sociais, Gestão da Tecnologia da Informação, Inteligência Artificial e Ciência de Dados, Psicanálise Clínica e Neuropsicanálise Clínica, além de MBA em Coaching.

Atuou como missionário na África do Sul (2007) e em Moçambique (2011), dedicando-se ao apoio e treinamento de líderes cristãos autóctones. Como docente do STBINE, implantou e dirigiu por mais de cinco anos a extensão da instituição na cidade de Cachoeira (BA). Ocupou os cargos de tesoureiro do STBINE, vice-presidente da CRIBI-BA (Convenção Regional das Igrejas Batistas Independentes da Bahia, 2016-2017), 2º secretário da UMBIBA e presidente da CIBIBA — Convenção das Igrejas Batistas Independentes na Bahia (2018-2019).

Em 2021, fundou a SOEVIN — Sociedade Evangélica Internacional, organização voltada à evangelização, formação de líderes e consolidação da fé cristã por meio de recursos digitais, hoje presente em dezenas de países. É também responsável pela SOEVIN Academy, que oferece o curso de Introdução Bíblica — do qual fazem parte estas aulas — ao lado de outras disciplinas, como Teologia Sistemática e Princípios da Fé Cristã. É autor do livro Ensaios – Diálogos Multidisciplinares sobre a Vida Humana (2019).

Mais informações: ericksilva.com/sobre · Currículo completo · soevin.org
Contato: pastor@ericksilva.com

A Bíblia, apesar de ser um dos livros mais antigos do mundo, ainda é um bestseller mundial por excelência. É produto do mundo oriental antigo, mas moldou o mundo ocidental moderno. Enquanto os crentes a reverenciam, houve tiranos ao longo da história que a queimaram. É o livro mais traduzido, mais citado, mais publicado e que mais influência tem exercido em toda a história da humanidade.

O significado da palavra “Bíblia”

Etimologicamente, o termo Bíblia vem do grego βίβλιον (Bíblion). O termo definia o resultado do que chamamos hoje de livros, cartas ou qualquer documento escrito. Foi empregado pela primeira vez ao conjunto de livros do Antigo e do Novo Testamento por São Jerônimo, que chamou a tradução vulgata latina de “Biblioteca Divina”.

As duas partes da Bíblia

A Bíblia compõe-se de duas partes: o Antigo Testamento (AT) e o Novo Testamento (NT). O AT foi escrito pela comunidade judaica e por ela preservado um milênio ou mais antes da era de Jesus. O Novo Testamento foi composto pelos discípulos de Cristo ao longo do século I d.C.

O significado da palavra “Testamento”

A palavra portuguesa “testamento” corresponde à palavra hebraica בְּרִית (berith), que significa aliança, pacto, convênio ou contrato. Os tradutores da Septuaginta traduziram berith para o grego διαθήκη (diatheke). Embora não haja perfeita correspondência entre as palavras, berith designa “aliança” (compromisso bilateral) e diatheke tem o sentido de “última disposição dos próprios bens”, “testamento” (compromisso unilateral).

Estudiosos cristãos frisaram a unidade existente entre os dois testamentos da Bíblia sob o aspecto da Pessoa de Jesus Cristo, que declarou ser o tema unificador da Bíblia. Agostinho dizia que o Novo Testamento acha-se velado no Antigo Testamento, e o Antigo, revelado no Novo.

As sessões da Bíblia

A Bíblia se divide em oito sessões, quatro do Antigo Testamento e quatro do Novo Testamento, conforme os quadros a seguir:

Livros do Antigo Testamento
A Lei (Pentateuco) – 5 livros
1. Gênesis
2. Êxodo
3. Levítico
4. Números
5. Deuteronômio
Poesia – 5 livros
1. Jó
2. Salmos
3. Provérbios
4. Eclesiastes
5. O Cântico dos Cânticos
História – 12 livros
1. Josué
2. Juízes
3. Rute
4. 1 Samuel
5. 2 Samuel
6. 1 Reis
7. 2 Reis
8. 1 Crônicas
9. 2 Crônicas
10. Esdras
11. Neemias
12. Ester
Profetas – 17 livros
Maiores: Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel
Menores: Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias
Livros do Novo Testamento
Evangelhos
1. Mateus
2. Marcos
3. Lucas
4. João
História
1. Atos dos Apóstolos
Epístolas
1. Romanos, 2. 1 Coríntios, 3. 2 Coríntios, 4. Gálatas, 5. Efésios, 6. Filipenses, 7. Colossenses, 8. 1 Tessalonicenses, 9. 2 Tessalonicenses, 10. 1 Timóteo, 11. 2 Timóteo, 12. Tito, 13. Filemom, 14. Hebreus, 15. Tiago, 16. 1 Pedro, 17. 2 Pedro, 18. 1 João, 19. 2 João, 20. 3 João, 21. Judas
Profecia
1. Apocalipse

A divisão do Antigo Testamento

A divisão do Antigo Testamento em quatro seções baseia-se na disposição dos livros por tópicos, com origem na tradução das Escrituras Sagradas para o grego (Versão dos Setenta – LXX). A Bíblia hebraica não segue essa divisão tópica em quatro partes; emprega uma divisão de três partes, baseada talvez na posição oficial de seu autor:

  1. Os cinco livros de Moisés, que outorgou a lei, aparecem em primeiro lugar (Torá – Lei).
  2. Seguem-se os livros dos homens que desempenharam a função de profetas (Nebhiim – Os Profetas).
  3. A terceira parte contém livros escritos por homens que, segundo a crença, tinham o dom da profecia, sem serem profetas oficiais (Kethubhim – Os Escritos).

Essa é a disposição encontrada nas edições judaicas modernas do Antigo Testamento. Embora o judaísmo mantenha a divisão tríplice do AT até hoje, a Vulgata Latina, de Jerônimo, e as bíblias posteriores seguiram o formato das quatro partes da Septuaginta.

Capítulos e versículos

As Bíblias mais antigas não eram divididas em capítulos e versículos. Essas divisões foram feitas para facilitar a tarefa de citar as Escrituras. Stephen Langton, professor da Universidade de Paris e mais tarde arcebispo da Cantuária, dividiu a Bíblia em capítulos em 1227. Robert Stephanus, impressor parisiense, acrescentou a divisão em versículos em 1551 (Novo Testamento) e 1555 (Bíblia completa). Estudiosos judeus, desde então, adotaram essa divisão de capítulos e versículos também para o Antigo Testamento.

A inspiração da Bíblia

A característica mais importante da Bíblia não é sua estrutura ou forma, mas o fato de ter sido inspirada por Deus. Hoje todos os cristãos definem a Bíblia como divinamente inspirada e infalível Palavra de Deus, mas nem sempre essa definição existiu. Ao longo da história, as teorias a respeito da inspiração da Bíblia variaram segundo três movimentos teológicos: a ortodoxia, o modernismo e a neo-ortodoxia.

1. Ortodoxia: a Bíblia É a Palavra de Deus

Por 18 séculos de história da igreja, prevaleceu a opinião ortodoxa da inspiração divina, segundo a qual a Bíblia foi inspirada por Deus verbalmente. Tentativas de explicar como o registro escrito é a Palavra de Deus, sendo composto por autores humanos com estilos pessoais diferentes, conduziram a duas opiniões: “ditado verbal” e “conceito inspirado”.

Ditado Verbal: Segundo John R. Rice (Our God-breathed book — the Bible), o ditado verbal não é mecânico: Deus ditou sua Palavra mediante a personalidade do autor humano, tendo formado previamente essas personalidades para que, ao usar estilos e vocabulários predeterminados, produzissem as palavras exatas que Ele desejava. O resultado foi um ditado palavra por palavra da parte de Deus.

Conceito Inspirado: Em sua Systematic Theology, A. H. Strong apresenta a chamada inspiração conceitual: Deus teria inspirado apenas os conceitos, não as expressões literárias particulares de cada autor. Deus deu seus pensamentos aos profetas, que tiveram liberdade de exprimi-los em termos humanos, evitando implicações mecanicistas do ditado verbal e preservando a origem divina das Escrituras.

2. Modernismo: a Bíblia CONTÉM a Palavra de Deus

Opondo-se à opinião ortodoxa, os modernistas ensinam que a Bíblia meramente contém a Palavra de Deus. Certas partes seriam divinas, mas outras seriam humanas e conteriam erros — resquícios de lendas, mitos e falsas crenças da época, que deveriam ser rejeitados pelos “homens iluminados” de hoje.

Iluminação: algumas partes “inspiradas” resultariam de uma espécie de iluminação divina, concedida a homens piedosos, misturada a ideias religiosas errôneas e crendices da ciência da época — daí resultariam graus variados de inspiração.

Intuição: na outra extremidade do modernismo, alguns negam totalmente qualquer elemento divino na Bíblia, considerando-a um caderno de rascunho de lendas e histórias judaicas, sem valor histórico. O que se chama inspiração seria apenas intensa intuição humana, sem nenhuma inspiração sobrenatural.

3. Neo-Ortodoxia: a Bíblia TORNA-SE a Palavra de Deus

No início do século XX, sob influência de Søren Kierkegaard, surgiu uma nova reforma teológica na Europa. Sem abandonar opiniões críticas sobre a Bíblia, seus defensores passaram a levá-la a sério como fonte da revelação de Deus: as Escrituras tornam-se a Palavra de Deus num encontro pessoal entre Deus e o homem. Desenvolveram-se duas correntes:

Visão demitizante (Rudolf Bultmann e Shubert Ogden): a Bíblia foi escrita em linguagem mitológica, própria da época de seus autores. A tarefa do cristão moderno é “demitizar” a Bíblia — despi-la de seus trajes lendários — para descobrir o conhecimento existencial subjacente. Para Bultmann, ao se despir dos mitos, a pessoa encontra a verdadeira mensagem do amor sacrificial de Deus em Cristo, de forma pessoal e subjetiva, sem necessidade de revelação objetiva e histórica.

Encontro pessoal (Karl Barth e Emil Brunner): visão mais ortodoxa, reconhecendo imperfeições no registro escrito, mas afirmando que a Bíblia é o veículo da revelação de Deus. Brunner sustenta que a revelação de Deus não se dá por meio de palavras; assim, a Bíblia passa a ser registro da revelação pessoal de Deus. Sempre que o homem moderno se encontra com Deus mediante as Escrituras, a Bíblia torna-se a Palavra de Deus para ele — não é um registro inspirado, mas um registro imperfeito que, apesar disso, é o testemunho singular da revelação divina.

Características da inspiração bíblica

A inspiração é verbal. A Bíblia reivindica para si mesma essa qualidade. 2 Timóteo 3.16 declara que as graphé (os textos) são inspiradas. Moisés “escreveu todas as palavras do Senhor” (Êx 24.4); o Senhor ordenou a Isaías que escrevesse a mensagem eterna de Deus num livro (Is 30.8); Davi confessou que a palavra do Senhor estava em sua boca (2Sm 23.2); Jeremias recebeu a ordem de não esquecer nenhuma palavra (Jr 26.2). No Novo Testamento, Jesus e os apóstolos usaram repetidamente a expressão “está escrito” (Mt 4.4,7; Lc 24.27,44); Paulo afirmou falar com as palavras que o Espírito Santo ensina (1Co 2.13); João adverte a não tirar palavras do livro da profecia (Ap 22.19). No sermão do monte, Jesus declarou que até os pequeninos sinais diacríticos de uma palavra hebraica vieram de Deus (Mt 5.18).

A inspiração é plena. A Bíblia reivindica inspiração divina de todas as suas partes — total e absoluta. “Toda Escritura é divinamente inspirada… e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm 3.16). Jesus e os autores do Novo Testamento citam trechos de todo o Antigo Testamento com plena autoridade, inclusive ensinos polêmicos (criação de Adão e Eva, o dilúvio, o milagre de Jonas), demonstrando que a inspiração da Bíblia é plena.

A inspiração atribui autoridade. Disse Jesus: “a Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35). O Senhor recorreu às Escrituras como autoridade para purificar o templo (Mc 11.17), contestar a tradição dos fariseus (Mt 15.3,4) e resolver divergências doutrinárias (Mt 22.29). Até Satanás foi repreendido por Cristo mediante a autoridade da Palavra escrita: “Está escrito…” (Mt 4.4,7,10). Jesus afirmou que “é mais fácil passar o céu e a terra do que cair um til sequer da lei” (Lc 16.17) — a Palavra de Deus não pode ser anulada.

Três fatos implícitos na doutrina da inspiração

1. A inspiração diz respeito igualmente ao Antigo e ao Novo Testamento. Embora a maioria das passagens citadas sobre inspiração plena refira-se diretamente ao Antigo Testamento, o Novo Testamento reivindica igualmente ser Escritura Sagrada. Pedro classifica as cartas de Paulo como parte das “outras Escrituras” (2Pe 3.16); Paulo cita o evangelho de Lucas (10.7) chamando-o de “Escritura” (1Tm 5.18) — fato significativo, já que nem Lucas nem Paulo pertenciam ao grupo dos doze apóstolos. Por implicação direta, todo o Novo Testamento é considerado Escritura Sagrada, com a mesma autoridade do Antigo Testamento.

2. A inspiração abarca uma variedade de fontes e de gêneros literários. O fato de a inspiração ser verbal não exclui o uso de documentos e gêneros literários diferentes — as Escrituras não foram ditadas palavra por palavra no sentido comum de “ditar”. Há diferença marcante de vocabulário e estilo entre os escritores: comparem-se as expressões literárias de Isaías com os tons lamurientos de Jeremias, ou a linguagem técnica de Lucas com as imagens pastorais de Tiago. A Bíblia também faz uso de documentos não-bíblicos, como o Livro de Jasar (Js 10.13; 2Sm 1.18), o livro de Enoque (Jd 14) e até o poeta Epimênides (At 17.28); Lucas reconhece o uso de muitas fontes escritas em seu evangelho (Lc 1.1-4). Os autores bíblicos empregaram vasta variedade de gêneros: poesia (Jó, Salmos, Provérbios), parábolas, sátira (Mt 19.24), alegorias (Gl 4), hipérboles (Cl 1.23), metáforas e símiles.

3. Inspiração pressupõe inerrância. A Bíblia não só é inspirada, mas por causa disso é inerrante, isto é, não contém erro. Tudo quanto Deus declara é verdade isenta de erro, pois Deus não pode mentir (Hb 6.18) e sua Palavra é a verdade (Jo 17.17). Não existem erros históricos nem científicos nos ensinos das Escrituras.


Referência bibliográfica

GEISLER, Norman L.; NIX, William E. Introdução Bíblica: Como a Bíblia Chegou até Nós. Tradução de Oswaldo Ramos. São Paulo: Editora Vida, 1997. (Livro-texto da disciplina)

GEISLER, Norman L.; NIX, William E. Introdução Geral à Bíblia: Uma Análise Abrangente da Inspiração, Canonização, Transmissão e Tradução. São Paulo: Editora Vida Nova, 2024. (Edição revisada e ampliada da mesma obra)